Ser parte
- criatividadeaolume
- 12 de jun.
- 2 min de leitura
Quando alguém está mais no canto ou a sentir-se frustrada, é difícil para mim não fazer de tudo para que ela consiga acompanhar, especialmente quando o grupo é pequeno. Escrevo a pensar numa situação recente, em que uma aluna se estava a sentir frustrada, dizia que “desenho não era para ela”, acabando por afirmar que queria ficar a observar-nos, que gostava de ver. Nestas alturas fico a pensar quanto devo insistir, porque impôr pode só aumentar a resistência e, neste caso, estamos a falar de uma pessoa adulta.
Então, acabei por aceitar a sua vontade de observar. Durante os minutos em que recebi o seu novo estado, lembrei-me que também se aprende, vendo. Mas vendo mesmo. Na verdade, as aulas de desenho que facilito, no seu fundamento, são mais sobre ver, do que sobre desenhar. Sobre esse prazer que é poder ver, com intenção. Poder absorver o mundo através dos olhos. Vemos tanto sem sentir, que a visão parece nem ser um sentido, quando é uma janela para o mundo e pode ser ponte de conexão com as outras pessoas. Dois olhares que se unem pode ser o que imediatamente nos faz conectar com outra pessoa.
Então o que podia ser apenas uma perturbação na aula - o momento em que uma aluna se sente frustrada e se retira - acabou por alterar o rumo da sessão. Tornou-se o gatilho para que lhe pudesse demonstrar a forma como desenho. Os momentos em que paro para olhar e imediatamente risco, tentando ao máximo retirar aquele espaço na minha cabeça em que quero que a realidade seja de uma forma que não é, vendo o que não está, em vez de ver o que realmente está à minha frente. Deste modo, posso só lentamente aceitar a complexidade do que observo, e representá-lo no papel.
— Oh, tu não desenhas uma coisa de cada vez! - observou.
Quando vejo e desenho, os objectos deixam de estar todos separados, para estarem todos juntos, como peças de um puzzle. Numa fotografia, vemos um conjunto de formas e cores que se unem numa superfície rectangular. No fundo, o objectivo é tranformarmo-nos numa máquina fotográfica, que pode seleccionar o que fotografa. Pode também alterar cores e formas. Gosto especialmente de desenhar assim, porque não estou a memorizar nem a racionalizar o que estou a ver, entre mim e a realidade do que vejo não existe nada, estou simplesmente a percepcionar a realidade.
Ainda assim… a aluna não ficou motivada. Então lembrei-me de uma proposta que a podia desbloquear. Aproveitando que estávamos no exterior, propus à aluna que colocasse uma folha no lugar onde se formava uma sombra em cima da mesa e pintar essa forma. Este tornou-se o início de uma proposta sua: que aquele fosse o início de um desenho colectivo, em que cada uma nós acrescentaria algo, ficando assim com uma memória física daquela experiência.
O que começou com uma frustração com potencial para exclusão acabou por desencadear uma série de acontecimentos, até de propostas que eu não tinha planeado e terminou com uma ideia que acabou por criar união e conexão entre todas nós. A integração acabou por acontecer.





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